Inadimplência mais que triplicou em 5 anos: O retrato do crédito no Brasil

O valor do crédito inadimplente passou de R$ 54 bilhões para R$ 177,6 bilhões entre 2021 e 2025. No mesmo período, o acesso ao crédito e as negativações também cresceram.

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Tempo de leitura estimado: 8 minutos

O acesso ao crédito mudou bastante nos últimos cinco anos no Brasil. Hoje, pedir um cartão, contratar um empréstimo ou financiar uma compra pode ser feito pelo celular em poucos minutos, sem a necessidade de sair de casa.

Como resultado, milhões de brasileiros que antes tinham pouco ou nenhum relacionamento com instituições financeiras passaram a utilizar esses produtos. Essa expansão trouxe novas possibilidades, mas aumentou a quantidade de pessoas que estão endividadas.

Entre 2021 e 2025, o Brasil passou de 96,8 milhões para 122,8 milhões de consumidores com crédito ativo, uma alta de 27%. Ao mesmo tempo, a proporção de pessoas inadimplentes aumentou de 19,9% para 26,3%. Os dados fazem parte do estudo “O começo de uma década”, desenvolvido pela Equifax BoaVista, Acordo Certo e CDL Porto Alegre.

O valor do crédito inadimplente mais que triplicou

Em 2021, as operações de crédito inadimplentes somavam R$ 54 bilhões. Ao final de 2025, esse saldo havia chegado a R$ 177,6 bilhões. No mesmo período, a taxa de inadimplência sobre a carteira analisada passou de 1,98% para 3,97%.

Portanto, quando falamos que a inadimplência mais que triplicou em cinco anos, é importante fazer uma distinção. Não foi o número de pessoas inadimplentes que triplicou, mas o valor financeiro das operações que estavam em atraso.

O aumento mostra que o problema passou a envolver uma quantidade muito maior de dinheiro, o que pode acontecer tanto porque mais consumidores passaram a atrasar pagamentos quanto porque as próprias operações de crédito ficaram maiores.

Para quem começa a enfrentar dificuldades, entender exatamente o que está acontecendo é essencial. Afinal, ter uma conta atrasada não significa necessariamente estar negativado, assim como uma dívida negativada também não é automaticamente uma dívida protestada.

O brasileiro passou a utilizar muito mais crédito

O saldo dos contratos de crédito ativo passou de aproximadamente R$ 2,7 trilhões em 2021 para R$ 4,47 trilhões em 2025, um crescimento de 63,7%.

A expansão pode representar uma oportunidade para quem precisa financiar uma compra, investir em um projeto ou lidar com uma despesa que não conseguiria pagar à vista.

O problema, contudo, aparece quando as parcelas começam a crescer mais rapidamente que a capacidade de pagamento. É uma situação relativamente simples de visualizar.

Por exemplo, um limite maior no cartão permite gastar mais, mas não aumenta o salário. Da mesma forma, conseguir um segundo empréstimo não significa que o primeiro deixou de fazer parte do orçamento.

Quando diferentes compromissos se acumulam e já não podem ser pagos sem comprometer despesas básicas, o consumidor pode entrar em uma situação de superendividamento, e aí a preocupação aumenta.

As negativações também aumentaram

Outro indicador do estudo, ajuda a dimensionar o problema. Entre 2021 e 2025, o número de pessoas negativadas cresceu 39,8%. Já a quantidade total de registros de negativação aumentou 73,1%. A diferença entre os dois percentuais merece atenção.

Pois, como o número de registros aumentou mais rapidamente que o número de pessoas negativadas, os dados são compatíveis com um cenário no qual diferentes pendências podem estar se acumulando.

O levantamento, entretanto, não permite afirmar o que aconteceu individualmente com cada consumidor. É possível notar que a inadimplência cresceu, e ela começa quando uma obrigação deixa de ser paga no prazo determinado.

Como uma dívida pode chegar ao protesto?

Quando a pendência continua sem pagamento e existe um documento que pode ser levado a protesto, o credor pode encaminhá-lo ao cartório. O protesto formaliza a inadimplência e passa a fazer parte do processo de cobrança.

Para o consumidor, isso significa que ignorar uma dívida não faz com que ela desapareça e pode tornar a regularização mais trabalhosa posteriormente. Mesmo depois do protesto, porém, ainda pode existir possibilidade de negociação.

Uma dívida protestada pode ser parcelada, dependendo das condições aceitas pelo credor, sendo necessário observar também os procedimentos para posterior cancelamento do protesto. Na plataforma Acordo Certo é possível fazer essas negociações.

Por isso, identificar a situação antes que diferentes pendências se acumulem tende a dar ao consumidor mais clareza sobre quais decisões precisam ser tomadas.

O comprometimento da renda também aumentou

O estudo mostra ainda que o indicador de comprometimento de renda com contratos de crédito passou de 70,3% em 2021 para 81,1% em 2025. Não quer dizer que todas as famílias brasileiras utilizavam individualmente 81,1% da renda para pagar dívidas.

Porém, o movimento ajuda a entender por que uma pessoa pode estar com todas as contas em dia e continuar financeiramente vulnerável. Pois, se quase todo o dinheiro disponível já está comprometido com parcelas, qualquer imprevisto pode provocar o primeiro atraso.

Depois disso, juros, multas e novos vencimentos podem transformar uma dificuldade momentânea em uma sequência de pendências. Nessa situação, conhecer todas as obrigações existentes é um passo importante.

Quem não sabe exatamente quais pendências estão vinculadas ao próprio documento pode começar entendendo como consultar dívidas no CPF e organizar os débitos por credor, valor e vencimento.

Ficou mais fácil conseguir crédito e também se endividar

Além dos indicadores de crédito, o levantamento trouxe uma pesquisa realizada pela Acordo Certo com 2.533 usuários engajados da plataforma, entre 26 de maio e 11 de junho de 2026.

Entre os participantes, 49,1% disseram considerar que ficou mais simples conseguir crédito nos últimos cinco anos. Ao mesmo tempo, 72,3% afirmaram que ficou mais fácil se endividar.

A percepção combina com uma transformação visível no mercado: a contratação do crédito ficou mais acessível, mas essa facilidade não elimina a necessidade de avaliar quanto cada nova parcela representa no orçamento.

Na prática, ter acesso a mais limite, cartões ou empréstimos amplia as possibilidades de consumo, mas também pode aumentar o número de compromissos mensais.

Quando essas parcelas começam a ocupar uma parte cada vez maior da renda, qualquer imprevisto pode dificultar os pagamentos. Por isso, o crédito disponível não deve ser interpretado automaticamente como dinheiro disponível.

O que fazer quando as dívidas já estão atrasadas?

Quando o atraso já aconteceu, o primeiro passo é conhecer a situação completa antes de assumir outro compromisso.

Vale verificar quem são os credores, quais valores estão atualizados, se existem negativações ou protestos e quanto da renda realmente pode ser utilizada para regularizar as pendências. Depois disso, é possível avaliar as propostas disponíveis.

Hoje, a possibilidade de negociar dívidas online também tornou mais simples comparar condições e buscar acordos sem precisar resolver todo o processo presencialmente.

Entretanto, desconto ou parcelamento, por si só, não resolvem o problema se o novo compromisso continuar maior que a capacidade de pagamento. O acordo precisa caber no orçamento junto com moradia, alimentação, transporte, saúde e outras despesas que continuarão chegando todos os meses.

O desafio não é apenas ampliar o crédito

Os dados da primeira metade da década mostram como o mercado financeiro brasileiro cresceu em pouco tempo. Mais consumidores passaram a utilizar crédito, o volume das operações aumentou e contratar produtos financeiros ficou mais fácil.

Ao mesmo tempo, o saldo das operações inadimplentes mais que triplicou, as negativações cresceram e o comprometimento de renda continuou elevado.

Esse fato mostra que ampliar o acesso ao crédito é apenas uma parte da questão. Para consumidores e empresas, o desafio dos próximos anos será fazer com que esse mercado cresça de maneira mais sustentável.

Porque crédito pode abrir possibilidades. Mas, quando deixa de caber no orçamento, a mesma facilidade que permitiu contratar pode se transformar em uma dívida cada vez mais difícil de resolver.

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